Escrever tem sido difícil, pois a
rotina frenética de uma mulher trabalhadora, mãe de três, dona de casa e com
milhares de coisas para fazer é corrido. Não estou reclamando pois a correria é
sinal de que estou viva e na ativa.
Hoje uma amiga, companheira de
trabalho, falou uma coisa que ficou martelando: — Ana quando está focada nos
pensamentos o mundo pode cair ao seu redor permanece na viagem dela, ai eu
deixo ela quieta.
É bem assim que passo grande parte do
meu dia, pensando e conversando com meus botões... É tanto assunto, tanta
temática, segredos e inquietações que ajustam e regulam minha capacidade de
acertar e errar menos. Sou impulsiva, tenho uma língua sem ladeira e o desaforo
mora dentro de mim e não paga aluguel, tenho que controlar os instintos para
não sair atropelando tudo e todos. A maturidade ensina a adoçar flechas com mel
antes de lançar no alvo, pois no vigor da juventude já lancei muitas flechas
amargas.
Em uma dessas conversas com meus botões
estava lembrando da história de Ana e Penina contada no livro de 1 samuel1:1-20
Elcana era um homem que tinha duas
mulheres. Ana a esposa amada que não podia ter filhos, passou a dividir seu
marido com outra mulher a Penina. Conforme o código de Hamurabi, se a primeira
mulher fosse estéril o homem poderia casar-se com a segunda. Este mesmo
dispositivo conjugal passou para a Lei Judaica.
Penina vivia tripudiando Ana por não
ter filho, não perdia a oportunidade de humilha-la e exibir sua afortunada
dadiva de dar filhos ao seu marido. Ana absorvia as cobranças sociais, se
sentia incompleta, inútil, fora dos padrões, humilhada e infeliz por não
corresponder as exigências imposta ás mulheres de sua época.
Quantas de nós vivem na condição de
Ana, humilhadas por não corresponder totalmente as exigências da sociedade?
A mão invisível que rege a moral,
costume e cultura de nossa civilização é muito cruel com as mulheres, nunca
somos boas o bastante. Quando a carreira profissional dá certo somos cobradas
por não atender adequadamente aos filhos, se cuidamos dos filhos e não
trabalhamos fora de casa somos jugadas por depender do marido e não buscar a
independência. Precisamos ser profissionais extraordinárias para atender ao
mercado de trabalho, esposas dedicadas para manter o casamento, se estar casada
tem que ter filhos, se tem filhos precisa educa-los de forma impecável pois mãe
é MÃE e se não casa é taxada como coitada, encalhada e incompleta.
Quantas culpas carregamos? Por
que tentamos atender um único padrão se somos tão diversas?
Recordo-me do sentimento de culpa que
carregava todos os dias que saia para trabalhar e deixava minhas filhas aos
cuidados de outra pessoa. Clarinha tinha menos de um ano quando teve um
problema respiratório e depois de ter levado a vários médicos, feito
fisioterapia respiratória e tomado remédios, precisou ficar internada. Chorei,
chorei e chorei... Sentia culpada por ter permitido que a situação se
agravasse, mesmo tendo feito o necessário e seguido todas orientações medicas.
Esta foi uma dentre tantas situações vivenciadas no meu percurso materno.
E quem nunca se comportou como Penina?
O nome Penina significa pedra preciosa,
mas aquela mulher não conseguia reconhecer a sua grandeza, valor e conquista.
Penina era uma mulher amargurada, tinha tudo e não tinha nada pois não
valorizava as bênçãos que tinham recebido, desejava ter o que a outra tinha,
mas não percebia que tinha recursos suficientes para ser feliz. A inveja era
sua companheira, a dor existencial tornava-lhe cruel a ponto de tripudiar de
outra por ser estéril.
Por que muitas mulheres seguem a vida
como se estivessem em uma competição onde só existe uma vencedora?
Se olharmos a nossa volta sempre tem
uma mulher disputando com outra mulher. Sogras com noras, irmãs, colegas de
trabalho e agora com as redes sociais as disputas e as tramas de invejas chegam
ao coração em um clique, em uma curtida ou numa olhadinha nos stores.
Gosto muito da palavra sororidade que
vem ganhando força em muitos movimento sociais de mulheres. É um termo que
propõe solidariedade e empatia entre mulheres, deixando de lado a rivalidade,
que muitas vezes é propagado como característica encontrada entre nós, passando
a construção de uma aliança de apoio mútuo.
Na bíblia a história de Noemi e Rute é
um exemplo maravilhoso de sororidade!
Noemi ("encantadora",
"agradável" ou "suave".) depois de perder seu marido e
filho trocou seu nome para Mara que significava amargurada. Rute não desistiu
de Noemi e teve empatia... e juntas conseguiram, com a graça de Deus mudar sua
sorte. Outro dia escrevo mais sobre estas duas mulheres maravilhosas. Agora
seguimos com Ana e Penina.
Ana não deixou a dor dominar as suas
ações a ponto de ofender e desprezar Penina, ela poderia mexer na ferida, pagar
com a mesma moeda, pois tinha o amor incondicional do seu marido. O nome de Ana
carrega as suas características, aquela que tem devoção, misericórdia e é cheia
de graça. Quando seu coração encontrou-se amargurado ela recorreu ao Deus das
causas impossíveis.
Ana sabia que tinha um valor diante de
Deus, as suas limitações físicas não podiam parar os seus sonhos, não dava para
viver a vida toda chorando e se lamentando por não viver num padrão. Buscou em
Deus as respostas, a cura e o milagre!
Alguém pode questionar: Ana queria
tanto um filho e o entregou ao Sacerdote?
A vitória de Ana não estava apenas em
ter um filho para guardar para si, mas em ver o agir divino mudando sua
história, curando sua alma, saindo do anonimato de uma mulher sem relevância,
desprezível, seca, infértil, motivo de vergonha, para ser registrada como ANA a
mãe de Samuel o Grande profeta usado por Deus a mulher que recebeu o Milagre!
As feridas da alma não podem ser
ignoradas. Elas causam diversos problemas emocionais, físicos e de
relacionamento. Penina era amargurada utilizava do seu sofrimento interior para
agredir ao próximo, porque precisava aliviar o peso de sua alma, descontando
toda sua infelicidade em Ana.
Ter uma alma sadia deve ser uma
prioridade, quando os sintomas surgirem coloque tudo em segundo lugar e busque
diligentemente ao Senhor até que a sua cura venha. Nosso Deus é poderoso para
mudar a nossa história e trazer a paz que excede todo entendimento aos nossos
corações.

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