Olhando pela janela


Hoje, abri minha janela tentando avistar o horizonte, mas só deu para ver o meu muro, senti saudades da minha antiga janela que conseguia assistir ao pôr do sol todas as tardes. Na verdade, não era o horizonte que eu queria olhar, nem a imagem do sol se pondo que meus olhos queriam admirar, o que me movia era o desejo de saber o que se dá do lado de lá e não do de cá.

Quando compramos nossa casa o muro era uma exigência, pois desejávamos privacidade em nosso lar. Os muros são construídos com fins diversos para separar, delimitar, proteger, preservar, bloquear... cada um tem seus objetivos particulares. Vivemos entre muros por toda parte, construímos muros até dentro do nosso coração nos tornando prisioneiros de nós mesmos ou em um mundinho só nosso que nos impede de ver e ouvir quem estar do outro lado, do lado de fora.

Confesso que tenho gostado de viver do lado de cá de dentro do meu muro, em tempos de coronavirus, permanecer no meu aconchego, no meu espaço de amor, afeto e preservando a minha família do mal que ronda do lado de fora, é reconfortante. A final de conta a palavra de ordem é #ficaemcasa.

E diante disto não dou sossego aos meu botões e fico á perguntar: Por que não olhamos por cima dos muros? Até quando os muros da indiferença vão separar a humanidade? Por que quando escutamos os gritos lá de fora, ficamos paralisados e por muitas vezes tentamos minimizar e desqualificar quem grita por Socorro? Por que a nossa dor é maior que a do outro? Por que chamamos de mimimi o que não conseguimos enxergar pela janela?

Diante de tantas perguntas lembrei da passagem da bíblia no livro de Lucas 7:11-17, onde Jesus encontra uma viúva que caminhava em um cortejo fúnebre para enterrar seu único filho fora do muro da cidade. Naquele tempo, os cadáveres eram considerados impuros e, por isso, eram enterrados fora dos muros das cidades judaicas. Aquela mulher iria enterrar seu filho fora dos muros e retornaria para cidade com suas dores, seus vazios interiores, com toda a condição de exclusão que a falta de seu marido e do filho lhe proporcionaria, encontrava-se à mercê da própria sorte. A situação de uma mulher viúva naquela sociedade era muito difícil, passaria a depender da caridade, das esmolas, da boa vontade ou da indiferença dos outros.

Quantas situações, pessoas e realidades lançamos para fora dos nossos muros jugando ser impuros? Apenas enterramos fora dos muros e viramos as costas sem nos preocupamos com as consequências, com os desdobramentos das situações.

 Jesus estava na porta dos muros e encontrou a viúva da cidade Nain, imediatamente se compadeceu dela e disse: Não chores! A atitude de Jesus estava carregada de empatia, solidariedade e humanidade! Ele olhou para aquela mulher e se compadeceu com seu sofrimento, trouxe vida ao seu filho e restaurou a sorte de uma mulher que não conhecia, nem seu nome foi registrado no relato, para Ele não importa o nome que carregamos, mas a nossa condição de criação de Deus, humano necessitado de misericórdia!

Porque falamos tanto de cristo e vivemos tão pouco dele?

 Em outro texto da bíblia João 3:1-21 foi relatado um diálogo que Cristo teve com um Religioso que não conseguia compreende as atitudes, os milagres e a os sinais que confrontava aquela sociedade. Nicodemos conhecia as escrituras e professava uma fé em Deus, mas Jesus faz um chamamento perturbador para aquele homem: “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus”.

Não é possível amar a Deus e viver uma vida cristã se não estamos dispostos a olhar além dos muros, se nossas atitudes não refletem as atitudes de cristo.

“17 Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.(...) 21 Mas quem pratica a verdade vem para a luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque são feitas em Deus.

Diante da grandeza de Cristo e de seus ensinamentos preciosos, eu vou seguindo, abrindo minha janela e me esforçando para olhar o que está do outro lado dos muros! E você?

 

Texto: Ana Maria Braga Rocha

Comentários

  1. Que lindo Ana. Sabias palavras 👏👏👏👏

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  2. Ana, estou encantada em conhecer seu lado como poetisa e escritora. Continue firme essa jornada.
    Você me fez lembrar, no início desse texto, SIMPLESMENTE; CECÍLIA MEIRELES.

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